textos de Marcelo Costa

“Devoradores de Estrelas”, de Phil Lord e Christopher Miller (2026)
Ok, o mundo real, essa bolota azul em que vivemos, está um caos (quando não esteve?). Os sinais de degradação estão por todos os lados, mas você não precisa ficar desesperado e sair por ai “beijando na boca de quem não devia, pegando no pau de quem não conhecia” (na versão adaptada de Paula Toller para o hino “E o Mundo Não Se Acabou”, de Assis Valente) e dizendo que “’Devoradores de Estrelas’ é um “clássico digno de Oscar”, como muita gente doida tem feito. Calma lá. “Project Hail Mary” (título original do filme, inspirado na jogada ‘Hail Mary Pass’, lance desesperado em que se tenta o impossível na última jogada de uma partida perdida de futebol americano) é um “comfort film” que ostenta as credenciais do estilo: inocência exacerbada, humor descontraído e a certeza de que, no final, tudo vai dar certo. Ryan Gosling interpreta Ryan Gosling, ou melhor, o Dr. Ryland Grace, um professor de ciências que é escalado, na marra (e nas injeções), para salvar o planeta: algo está extinguindo a luz do sol, e a humanidade está com os dias contados, por isso o Dr. Grace é colocado numa nave contra sua vontade – e em coma induzido – junto a dois astronautas numa missão só de ida para resolver o problema. Assim que desperta do coma, ele descobre que seus companheiros de nave estão mortos enquanto tenta juntar as peças do quebra-cabeça que o colocou naquela situação. No que começa a estudar o motivo do apagamento das estrelas, descobre que não está sozinho: um ser de outro planeta, um alienígena mais parecido com um caranguejo de pedra, foi enviado por seu povo com o mesmo intuito, e, bem, duas cabeças pensam melhor que uma (mesmo que uma delas seja dura como uma rocha). Sucesso de bilheteria (custou US$ 250 milhões e já faturou US$ 685 milhões) baseado no livro homônimo de Andy Weir (autor também de “Perdido em Marte”), “Devoradores de Estrelas” é uma sessão da tarde agradável cuja história se move sem muito esforço, inclusive, de atuação: Sandra Huller (“Toni Erdmann”, “Anatomia de Uma Queda”, “Zona de Interesse”) interpreta Eva, a encarregada do projeto, e nunca ganhou um dinheiro tão fácil (ela merece), já que seu papel nada exige. Daqui 10 anos, uma IA poderá recriar Huller e Gosling para personagens tão básicos como esses, perfeitos para um filme fofinho e esquecível (praxe do currículo de Lord e Miller, também responsáveis por “Lego Movie”, 2014). E o tal do mundo não se acabou… ainda.
Nota: 5

“Dia D”, de Steven Spielberg (2026)
Você acredita na existência de extra-terrestres, caro leitor? Spilberg, o diretor de “E.T” (1982), acredita. Ele aparece no trailer deste “Disclosure Day” (o “Dia da Revelação” na tradução correta) para reforçar sua fé de que não apenas não somos os únicos seres a povoar o universo, como contatos imediatos de quinto grau (CI-5) já vem acontecendo há mais de 80 anos (elencando teorias da conspiração como o Caso Roswell e os círculos em plantações), e que um órgão vinculado ao governo dos Estados Unidos tanto coordena os estudos quanto protege as informações. Não apenas! No roteiro desenvolvido pelo colaborador David Koepp a partir de ideias de Spilberg, “Dia D” reforça que se as pessoas soubessem o que aconteceu, ficariam enojadas. Na trama, Daniel Kellner (Josh O’Connor), um especialista em segurança cibernética, rouba dezenas de horas de gravações de contatos com ETs protegidos pela empresa em que ele trabalhava, a Wardex Corporation (Waived Reporting, Development, and Extraction). O órgão sequestra sua namorada, Jane (Eve Hewson), obrigando-o a negociar com o chefão da corporação, Noah Scanlon (Colin Firth). Keller, porém, não está sozinho na empreitada: um grupo de ex-funcionários da Wardex, comandados por Hugo (Colman Domingo), planeja revelar ao mundo toda a história, o que brindará o espectador com cenas de perseguição cabulosas de tirar o folego, filmadas com toda classe e inteligência e dinheiro que só um grande mestre do cinema pode ostentar (se você também acha “Os Fabelmas”, filme anterior de Spilberg, um tropeço na carreira do cineasta, vale dar a ele uma nova chance). E há, ainda, Emily Blunt numa atuação magnética, divertida e completamente entregue. O elenco, aliás, é um dos pontos fortes de “Dia D”, pois consegue fisgar a atenção do espectador de tal maneira que ninguém fica se perguntando “isso é possível mesmo?”. Durante 145 minutos (que parecem menos), a audiência será provocada por Spilberg, que oferece sinceridade e inocência para um mundo cada vez mais cínico. O resultado é cinema hollywoodiano de altíssima qualidade. Cinema, já que a vida real é outra coisa. Nela, escolas e hospitais são bombardeados criminosamente e… vida que segue. Se a humanidade não se importa com bebês e crianças sendo assassinados, iria se importar com seres extra-terrestres estripados em laboratório? Em Hollywood, sim. Pegue seu balde de pipoca e seja feliz por duas horas e meia. Mas… a vida não é filme, entendeu?
Nota: 7.5

“O Convite”, de Olivia Wilde (2026)
Em 2015, logo depois de lançar um grande filme, o belíssimo “Truman”, o diretor e roteirista catalão Cesc Gay arrebatou os teatros espanhóis com a peça “Els Veïns de Dalt” (“Os vizinhos de cima”, em tradução literal), que teve uma trajetória de sucesso até ganhar uma versão (em espanhol) para o cinema, com o nome “Sentimental” (“The People Upstairs” para o mercado estrangeiro), em 2020. Seis anos depois, Olivia Wilde assume a direção e atua em “The Invite”, uma versão made in USA do original espanhol, que transporta a trama de Barcelona para São Francisco e conta, ainda, com Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton. Toda a história se passa no apartamento de Joe (Seth) e Angela (Olivia), um casal que vive um momento infeliz do casamento, e discute por absolutamente qualquer motivo. A briga desse dia, porém, é especial: Angela convidou os vizinhos do apartamento de cima, Pina (Penelope) e Hawk (Edward), para jantar num sinal de agradecimento pela cooperação dos vizinhos, que “tiveram” que conviver com a reforma em seu apartamento. Joe, porém, odeia a escola de música em que leciona, odeia ter de andar de bicicleta (por recomendação média) nos morros de São Francisco, odeia a dor nas costas que vem sentindo e, principalmente, odeia os vizinhos escandalosos no sexo, esses mesmos que estão agora no meio de sua sala. O sarcasmo voraz de Joe, porém, diverte o bem-humorado Hawk, e tudo segue numa linha tênue que, inesperadamente, pode tender ao caos, quando uma informação surge para apimentar a história: Pina e Hawk promovem festas sexuais em seu apartamento com outros casais, dai o barulho exacerbado que incomoda os vizinhos. Empolgadamente curiosos, Joe e Angela se agarram a corda que foi lançada no buraco em que se encontram e iniciam um questionário para Pina e Hawk que, por fim, confessam que aceitaram o convite do jantar porque queriam se aproximar de Joe e Angela e incluir seus anfitriões em suas aventuras sexuais. Sorrisos surpresos ecoam pela sala. Se em “Sentimental”, Cesc Gay conduz sua história valorizando os silêncios – sem abdicar da comédia – que fizeram de “Truman” um grande filme, Olivia Wilde aposta na verborragia e acelera os diálogos (num roteiro assinado por Will McCormack e Rashida Jones) para conseguir ampliar a distância entre a comicidade da possibilidade de sexo extraconjugal (consentido) e o drama dolorido da solidão de um relacionamento prestes a desmoronar, resultando em um pequeno grande filme que diverte e emociona, principalmente em sua cena final, arrebatadora.
Nota: 7.5
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.